Literatura Estrangeira
218 títulos
Um dos últimos livros publicados em vida por Goethe, Os anos de viagem de Wilhelm Meister (1829) — continuação do romance de formação Os anos de aprendizado (1796) —, assoma como sua narrativa mais arrojada e complexa, com uma vasta galeria de personagens, múltiplos fios narrativos e novelas inteiras inseridas na moldura da obra. Em seu veio principal, o livro narra as viagens a pé de Wilhelm e sua formação como médico-cirurgião num contexto social revolucionado pelo advento da máquina a vapor e de novas forças produtivas, temas tratados a fundo neste que foi o romance social mais significativo de seu tempo. Para orientar o leitor no vasto universo do romance — pela primeira vez traduzido no Brasil, por Claudia Abeling — o volume traz sinopses de todos os capítulos e um alentado ensaio de apresentação de Marcus Mazzari, professor da USP e um dos maiores especialistas contemporâneos na obra goetheana.
Deus existe? Qual a origem da vida? Como o planeta Terra se formou? Como alcançar, em vida, a suma felicidade? Os homens não são capazes de responder a tais perguntas, tampouco os gatos do passado e muito menos os cachorros, “criaturas condenadas”. Apenas um gato de grande inteligência dedutiva, afinado ao pensamento moderno, saberia decifrar os mistérios do mundo. Publicado em 1858 pelo historiador e crítico literário francês Hippolyte Taine, ilustrado por Gustave Doré, Vida e opiniões filosóficas de um gato oferece ao leitor o mais delicioso e sutil senso de humor, destilado neste breve tratado de filosofia felina.
No breve tratado A metamorfose das plantas, publicado em 1790, J. W. Goethe teve a genial intuição de não tomar os fenômenos naturais de modo estático, mas sim em sua perpétua mutabilidade, indagando então as leis que regem as suas transformações. O poeta formula então a ideia de morfologia, cuja atenção se volta, no estudo dos organismos vivos, não para as formas fixas, mas para as formas em devir, com fundas implicações para a biologia, a antropologia, a filosofia e a teoria da linguagem. O presente volume conta ainda com um ensaio da tradutora e filósofa portuguesa Maria Filomena Molder, uma seleção de excertos, cartas e textos de Goethe, bem como comentários de outros autores sobre o tratado, de Maimon a Walter Benjamin. Além disso, traz a elegia goethiana “A metamorfose das plantas”, de 1798, e reproduz dez desenhos do autor, cedidos especialmente para esta edição pelo Goethe- und Schiller-Archiv, de Weimar.
Embora Auguste Dupin não seja propriamente um detetive, e sim um jovem cavalheiro parisiense, as três histórias aqui reunidas — “Os assassinatos na rua Morgue” (1841), “O mistério de Marie Rogêt” (1842-43) e “A carta furtada” (1844) —, as únicas protagonizadas por ele, são os marcos inaugurais da chamada “literatura policial”. A influência do personagem de Edgar Allan Poe sobre este gênero literário é admitida por todos os mestres que o sucederam, como Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, e Maurice Leblanc, autor do “ladrão de casaca” Arsène Lupin. Unindo observação aguda e análise imaginativa, Auguste Dupin intriga e surpreende até hoje, fazendo da investigação criminal uma arte sutil e filosófica. O volume apresenta as traduções de Alexandre Hubner e Bernardo Ajzenberg para os contos de Poe, e de Sergio Tellaroli para o posfácio do ensaísta alemão Joachim Kalka, texto escrito especialmente para esta edição.
Entre os Ezechiel, é Antoine quem dá as cartas. Com suas crenças insólitas e seu senso de independência, é a mais indomável de três irmãos. É a ela que recorre sua sobrinha, jovem nascida na periferia de Paris, às voltas com a própria identidade mestiça, para conhecer um pouco mais do passado familiar. Percorrendo cenas de infância em Morne-Galant, na ilha de Guadalupe, passando pela vida em Pointe-à-Pitre e pelo inevitável exílio na metrópole francesa, Antoine recompõe a história de sua família e a do país caribenho nos séculos XX e XXI. Com prosa fluida e intensamente romanesca, mesclando francês clássico a expressões crioulas, Onde o vento faz a curva, premiado romance de estreia da autora franco-guadalupenha Estelle-Sarah Bulle, chega ao Brasil com tradução de Letícia Mei, e esboça um retrato sensível de uma geração de antilhanos que se reinventa na fronteira entre dois mundos.
Irmãos migrantes é um manifesto político-poético contra a barbárie contemporânea das migrações forçadas. Em dezoito capítulos breves, Patrick Chamoiseau, um dos grandes nomes da literatura francesa e caribenha, ergue sua voz contra a violência que marca uma das maiores crises humanitárias do presente. Com escrita de intervenção e inventividade poética, articula urgência ética e criação de linguagem para propor novos imaginários. À brutalidade das fronteiras e ao fechamento dos Estados-nação, opõe a mundialidade de Édouard Glissant como alternativa à globalização do consumo. Inspirado em Pasolini, vê nos vagalumes lampejos de esperança que anunciam futuros possíveis. Nascido na Martinica, em 1953, Chamoiseau é autor de vasta obra incluindo romances, ensaios e contos; esta edição conta com tradução de Prisca Agustoni, posfácio de Vanessa Massoni da Rocha e texto de orelha de Tiganá Santana.
Dando continuidade à publicação do Teatro completo de Eurípides em edições bilíngues, com traduções e estudos de Jaa Torrano, professor titular de Língua e Literatura Grega da USP, este volume V reúne três peças do grande autor trágico: Helena, As Fenícias e Orestes. Helena, que abre este volume, inverte singularmente as perspectivas da tradição: aqui não é a Helena que deu origem à Guerra de Troia, mas um duplo seu, que permaneceu no Egito e ali reencontra o amado Menelau. Em As Fenícias (personagens que formam o coro da tragédia), o pacto entre Etéocles e Polinices, filhos de Édipo e Jocasta, pela alternância no poder em Tebas, cai por terra e leva a funestas consequências. Já Orestes põe em cena outro par de irmãos, Electra e o próprio Orestes, este perseguido pela loucura após ter assassinado a mãe e o padrasto em vingança pela morte do pai, Agamêmnon.
Publicado em 1965, o cultuado romance O astrágalo, de Albertine Sarrazin (1937-1967), autora nascida em Argel e educada em reformatórios na França, conta a história da jovem delinquente Anne. Ao fugir de uma penitenciária, ela fratura o osso do calcanhar que dá nome ao livro e conhece o ex-presidiário Julien, seu grande amor. Autobiográfico até a medula, e escrito quando a autora estava cumprindo pena por roubar uma garrafa de uísque, O astrágalo retrata uma vida na fronteira entre o submundo e a efervescência boêmia de Paris nos anos 1960, lembrando o Acossado de Godard. Tida como “alma gêmea de Jean Genet”, Albertine Sarrazin foi elogiada por Simone de Beauvoir e influenciou toda uma geração de escritoras com este livro, como Patti Smith, que assina o emocionado prefácio ao volume. Uma frase de Albertine, dita ao juiz em uma de suas condenações, exprime bem a força de sua literatura: “Não tenho nenhum remorso. Quando tiver, eu aviso”.
Crítico de arte inglês conhecido por um sem-número de ensaios e livros como Modos de ver (1972), John Berger (1926-2017) dedicou-se com igual brilhantismo à ficção — seu romance G. mereceu o Booker Prize de 1972. O toldo vermelho de Bolonha, publicado em 2007, faz parte da sequência de livros breves e inclassificáveis que publicou nos últimos anos de vida. Nesta obra luminosa, o autor passeia entre um subúrbio londrino e as arcadas de Bolonha, entre o relato de viagem e o retrato falado de seu tio Edgar — personagem marcante em sua formação, que o ensinou a fugir dos lugares-comuns —, enquanto se permite toda sorte de digressões sobre receitas locais, tecidos de linho, estátuas em terracota, variedades de café ou ainda sobre os vínculos secretos e libertadores entre os grandes sofrimentos e os pequenos prazeres.
Publicado na Argentina em 2024, o primeiro livro de Julieta Correa nasce na convergência entre memória e romance, fato médico e ficção literária, perda e presença, luto e humor, entre os diários da mãe e as anotações da filha. A mãe é Sari, mulher de espírito e de letras, às voltas com uma moléstia sem nome que vai fazendo tabula rasa de suas faculdades, sua verve e sua voz. A filha é a autora de Por que são tão lindos os cavalos?, às voltas com o emprego, a pandemia, o confinamento e, cada vez mais, os sintomas, as consultas, os lapsos e os silêncios de Sari. Aos poucos, vai se impondo à autora a suspeita de que a doença tanto apaga como revela. Revela o teor humano de quem padece e, no caso de Sari, traz à luz a suspeita tantas vezes registrada em seus diários quanto ao caráter efêmero e fugidio da experiência humana, na raiz de sua tragédia e de sua beleza.
Subvertendo as fronteiras entre ensaio e literatura, Patrick Chamoiseau reflete em O contador, a noite e o balaio sobre a escrita, a fala e o gesto criador. Inspirado na “oralitura”, conceito central da poética antilhana, volta-se ao velho negro escravizado das Antilhas do século XVII que, à noite, transforma-se em “mestre da palavra”: o contador crioulo, origem simbólica da literatura antilhana. Sua palavra inaugura uma forma de resistência simbólica à colonização e um sistema de forças que se opõe à violência das plantações. Traduzido por Henrique Provinzano Amaral, com posfácio de Michel Mingote, o ensaio amplia o diálogo entre literatura, dança, música e artes visuais, evocando Aimé Césaire e Édouard Glissant. Nascido na Martinica em 1953, vencedor do Prêmio Goncourt com Texaco, Chamoiseau é uma das vozes mais expressivas da literatura caribenha.
Exilado em Berlim nos anos 1920 junto com muitos outros artistas e escritores russos, Viktor Chklóvski (1893-1984), um dos principais teóricos do Formalismo Russo, apaixonou-se pela jovem escritora Elsa Triolet e passou a lhe enviar cartas diariamente. Ela aceitou as cartas, impondo uma única condição: que elas não falassem de amor. Zoo, ou Cartas não de amor (1923) é o genial romance epistolar resultante dessa correspondência. Num verdadeiro surto criativo, Chklóvski recorre aos mais variados assuntos e formas literárias para lidar com a proibição, mas, não obstante, a paixão reprimida se insinua a todo momento por entre as linhas desta prosa ágil, divertida e emocionada. Inédito no Brasil, Zoo traz a criteriosa tradução de Vadim Nikitin, que se baseou na última edição revista pelo autor, de 1966, e inclui uma introdução do crítico e tradutor Richard Sheldon e um perfil biográfico de Elsa Triolet.