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Os anos de viagem de Wilhelm Meister
Tradução de Claudia Abeling
Coleção Clássicos
Quatro dias após ter completado seu 80º aniversário, em 1829, Goethe dava os últimos retoques a Os anos de viagem de Wilhelm Meister — a aguardada continuação de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, obra fundadora do gênero “romance de formação” —, no qual trabalhava havia décadas. Fruto, como o Fausto II, de sua alta velhice, o livro assoma como a mais arrojada e complexa narrativa de Goethe — com uma vasta galeria de personagens, múltiplos fios narrativos, novelas inteiras inseridas na moldura do romance, poemas, aforismos e sentenças —, valendo-se de procedimentos épicos inusitados para a época, nos quais já se enxergou um momento precursor do romance moderno, de extração joyceana.
Em seu veio principal, o livro narra as viagens a pé de Wilhelm e sua formação como médico-cirurgião (que na Alemanha da época tinha um status próximo ao de um ofício), a qual ocorre num contexto social revolucionado pelo advento da máquina a vapor e de novas forças produtivas, com seus corolários positivos e negativos: destruição da manufatura, desemprego, movimentos migratórios, perspectiva de uma vida melhor no continente americano. Acima de tudo, Os anos de viagem são um romance social, o mais significativo de seu tempo, conforme postulou Karl Rosenkranz ao inaugurar a recepção socialista da obra articulada por discípulos de Hegel.
Para orientar o leitor no vasto e intricado universo do romance — pela primeira vez traduzido no Brasil, por Claudia Abeling — o volume traz sinopses de todos os capítulos e um alentado ensaio de apresentação de Marcus Mazzari, professor da USP e um dos maiores especialistas contemporâneos na obra goetheana.
Texto orelha
“Como muita coisa em nossa experiência não pode ser pronunciada de forma acabada e nem comunicada diretamente, há muito tempo elegi o procedimento de revelar o sentido mais profundo ao leitor atento por meio de configurações que se contrapõem umas às outras e ao mesmo tempo se espelham umas nas outras. Como tudo a que dei expressão se fundamenta em experiência de vida, posso certamente sugerir e esperar que as minhas criações poéticas sejam por sua vez efetivamente vivenciadas.”
Carta de Goethe a Carl Jacob Ludwig Iken, durante o trabalho em Os anos de viagem, 27/9/1827
“Eu só ousaria dizer que temos todos os motivos para agradecer profundamente a Vossa Excelência pelas percepções e perspectivas puras e elevadas que nos descortina essa obra que a mim se configura como um testamento de todas as suas experiências de vida e que, em seu conteúdo profundamente sério e digno, satisfaz todas as exigências que se podem fazer a uma obra poética, e não meramente didática, por intermédio de sua forma maravilhosa”.
Carta de Karl Ernst Schubarth a Goethe, junho de 1829
“Esse livro altamente cativante, de conteúdo tão substancial, causou-me a mais singular e agradável das impressões; em vários aspectos, ele surgiu perante meus olhos como algo familiar e, ao mesmo tempo, novo [...]. Em suma, acreditei, em face de sua descrição dos costumes e das condições de nossa época, estar lendo um Ariosto em prosa.”
Carta de Sulpiz Boisserée a Goethe, agosto de 1829
“Tenho lido bastante e com frequência Os anos de viagem, onde sempre encontro uma vida nova, que enriquece e edifica os meus dias. Há muito tempo que o livro ultrapassa, para mim, o estatuto de romance e criação literária. Agora é o saint-simonismo que entrou em diálogo com ele. Essa curiosa personalidade francesa [...] haverá infalivelmente de penetrar em nosso meio; e então valerá a pena comparar e distinguir com precisão quais sementes de doutrinas e práticas análogas já estavam plantadas em Os anos de viagem.”
Carta de Varnhagen von Ense a Goethe, dezembro de 1831
“É a formação, tal como Goethe a entendia, [...] é aquela árdua e rigorosa tarefa do conhecimento que o acompanhou por toda a vida, obrigando-o, com uma fome sempre insaciável, a absorver em si todas as manifestações da vida e a redimensioná-las, no verdadeiro sentido da palavra. E é essa totalidade da existência que o impulsionou a formas de expressão inteiramente novas e que, em Os anos de viagem, lançou as bases da nova criação literária, do novo romance [...]. Goethe ainda vivia na época dos antigos valores; ele estava em sintonia com seu tempo, mas sua intuição e seu conhecimento estavam cem anos à frente.”
Hermann Broch em “Joyce e o presente” (1936)
“Em 1830 Os anos de viagem ocupa um lugar de máxima exposição na nova era histórica e toca em seu cerne. Não como ‘romance de época’, coisa que também é, mas sim como obra de arte consciente de seus limites — e da chance de ultrapassá-los. Em 1830 ele é tão representativo da modernidade da época como cem anos depois será o Ulysses. E que Os anos de viagem o seja en passant, de modo tão leve e descontraído, isso é o que há de mais maravilhoso.”
Adolf Muschg, posfácio a uma edição da novela O homem de 50 anos (1985)
Sobre o autor
Sobre a tradutora
Claudia Abeling nasceu em São Paulo, em 1965. Depois de trabalhar como editora em algumas casas de edição de São Paulo e também de Frankfurt, na Alemanha, concentrou suas atividades profissionais na tradução literária do alemão. Entre os títulos que verteu para o português, dois foram finalistas do Prêmio Jabuti. Também é autora dos livros de poemas p:l:a:n:g:e p:l:a:n:g:e (Quelônio, 2019) e a que manca (Quelônio, 2026).
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