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Elogio da crioulidade

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Elogio da crioulidade

Jean Bernabé
Patrick Chamoiseau
Raphaël Confiant

Tradução de Henrique Provinzano Amaral

Prefácio à edição brasileira de Patrick Chamoiseau
Entrevista com Raphaël Confiant por Vanessa Massoni da Rocha
112 p. — 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-287-3
2026 — 1ª edição

“Nem europeus, nem africanos, nem asiáticos, nós nos proclamamos crioulos. Isso será para nós uma atitude interior, ou melhor: uma vigilância, ou melhor ainda, uma espécie de invólucro mental no interior do qual se construirá nosso mundo, em plena consciência do mundo.”

Proferido como conferência no Festival Caribenho de Seine-Saint-Denis em 1988 por Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, e publicado na França no ano seguinte, o Elogio da crioulidade logo foi mundialmente reconhecido como o manifesto fundador de um audacioso projeto literário. Sucedendo-se ao movimento da Negritude — centrado nas figuras de Aimé Césaire e Léopold Senghor — e celebrando o pensamento de Édouard Glissant, o Elogio da crioulidade proclama uma identidade caribenha mestiça em suas próprias fundações. Sua proposta estética anuncia as bases do que viria a ser uma literatura antilhana, escrita em língua crioula, mas sem abrir mão da língua francesa, celebrando assim a diversidade e o potencial criativo do universo caribenho.

Em prefácio inédito à edição brasileira, que elabora a passagem da crioulidade à Relação, Chamoiseau atualiza e reflete sobre o papel desse texto-manifesto com o recuo do tempo: “Os manifestos costumam falar em voz alta. Hoje, precisam aprender a ouvir as vozes que eles não souberam acolher”. Fica o convite para que o Elogio da crioulidade seja lido à luz do nosso tempo, como lugar de encontro entre as experiências crioulas no Caribe e as especificidades do pensamento brasileiro.


Texto orelha

O Elogio da crioulidade é dessas obras fundamentais para o pensamento e a poética das vivências em todo o planeta contemporâneo, sobretudo para as descendências dos impérios coloniais da Idade Moderna, com sua racialização violenta, seu modelo escravista e seus epistemicídios sistemáticos.

Esse manifesto escrito a seis mãos, por Jean Bernabé, Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, veio à luz em 1989 e demorou, portanto, trinta e sete anos para chegar ao Brasil, em tradução de Henrique Provinzano Amaral. Vem, entretanto, num momento propício, em que estamos preparados para lidar com suas implicações, depois de vermos mais obras de Patrick Chamoiseau traduzidas, e também de Édouard Glissant — duas figuras martinicanas fundamentais para sairmos de dicotomias que por vezes assombram (excessivamente, é certo) o pensamento ocidental e suas ramificações nos continentes americano e africano. Acompanhado de um prefácio inédito de Chamoiseau, que situa historicamente a discussão e dialoga com o pensamento brasileiro, o volume traz ainda uma entrevista recente com Confiant, feita por Vanessa Massoni da Rocha, que repensa a própria obra depois de décadas.

A defesa radical da miscigenação cultural da Martinica, isto é, de uma cultura crioula sempre em movimento, elaborada a partir das identidades caribenhas em cruzamento, tem dois aspectos radicais e salutares para o Brasil de agora.

Em primeiro lugar, ela escapa daquela visão idealizante e apaziguadora, que tomou forma no pensamento brasileiro pelas obras de autores como Gilberto Freyre. O Elogio da crioulidade está longe de ser um mito de raças em convívio: é antes uma defesa da produção contínua de diferenças, pela constatação lúcida de que absolutamente toda aventura humana é mestiça, e que é, afinal, no encontro contínuo de diferenças dadas que novas diferenças se produzem. Ao assumir essa condição, poderemos de fato propor comunidades por vir, num reconhecimento da opacidade alheia a partir de uma vivência poética, isto é, criativa e colaborativa, que também se dá no uso da língua e dos corpos.

Em segundo lugar, o Elogio da crioulidade também funciona como um necessário antídoto contra qualquer noção de identidade estanque. Avessa a uma leitura dos conflitos raciais em chave dicotômica (por sua vez herdada de boa parte das discussões norte-americanas que precisam lidar com especificidades do racismo nos Estados Unidos), a proposta de Bernabé, Chamoiseau e Confiant contempla as identidades múltiplas em convívio num mesmo sujeito, por vezes contraditórias ou, no mínimo, dissonantes.

Afirmar tal situação fluida e aberta em que vivemos é uma das condições mais necessárias para pensar sociedades fenotípica, cultural, linguística, econômica e socialmente complexas como o Caribe, o Brasil e as demais partes da América Latina; tal gesto nos conclama a revisitar a violência que nos criou também como a fonte do que nós devemos criar de agora em diante. Não é simples, nem pode ser; no entanto, aqui encontramos uma formulação vitalista que aposta na Relação e na capacidade incessante de criação de modos de vida e de resistências moventes.

Guilherme Gontijo Flores


Sobre os autores
Jean Bernabé, nascido em 1942 em Le Lorrain e falecido em 2017 em Fort-de-France, na Martinica, foi um influente linguista, ensaísta e romancista martinicano. Um dos fundadores do movimento da crioulidade e figura central da crioulística, dedicou sua trajetória à promoção e à valorização da língua e da cultura crioulas. Linguista de formação, foi professor de Línguas e Culturas Regionais na Universidade das Antilhas e da Guiana. Em 1975, fundou o Grupo de Estudos e Pesquisas em Crioulofonia (GEREC), desempenhando um papel fundamental na institucionalização dos estudos crioulos e na codificação gráfica do crioulo martinicano. Em 1989, ao lado de Patrick Chamoiseau e Raphaël Confiant, publicou o histórico manifesto Éloge de la créolité, que propunha uma nova concepção da identidade e da literatura antilhanas a partir da experiência da crioulidade. Entre suas principais obras acadêmicas, destaca-se Fondal-natal: grammaire basilectale approchée des créoles guadeloupéen et martiniquais, publicada em 1983 pela L’Harmattan. A partir dos anos 2000, Bernabé também se dedicou à ficção, publicando Le Bailleur d’étincelle (2002) e Partage des ancêtres (2004).

Patrick Chamoiseau, nascido em 1953 em Fort-de-France, Martinica, é uma das vozes mais importantes da literatura caribenha. Graduado em Direito e Economia, exerceu a função de educador social na França e depois na Martinica. Interessado por etnografia, debruça-se sobre as formas culturais em vias de desaparecimento de sua ilha natal, mas também sobre o dinamismo de sua língua materna, o crioulo. Em 1986, publica seu primeiro romance, Chronique des sept misères, vencedor dos prêmios Loys Masson e Kléber-Haedens, e, dois anos depois, Solibo Magnifique. Em 1989, juntamente com Jean Bernabé e Raphaël Confiant, escreve o influente manifesto Éloge de la créolité, inspirado nas teorias da Negritude de Sédar Senghor e Aimé Césaire, em que reivindica uma identidade caribenha pautada na mestiçagem cultural. Desde então, assinou diversos ensaios, notadamente Lettres créoles (1999), com Raphaël Confiant, e L’intraitable beauté du monde (2009), com Édouard Glissant. Em 1992, recebe o prestigioso Prêmio Goncourt pelo romance Texaco, nome de um bairro negro em Fort-de-France. Entre suas obras mais recentes, destacam-se o manifesto poético Frères migrants (2017), o livro de contos Contes des sages créoles (2018), o ensaio Le conteur, la nuit et le panier (2021) e o atualíssimo Que peut Littérature quand elle ne peut ? (2025), em que faz uma aposta no poder da literatura de acolher a alteridade e construir relações num mundo cada vez mais polarizado e opressor.

Raphaël Confiant, nascido em 1951 em Le Lorrain, na Martinica, é um notório escritor e pensador da literatura caribenha contemporânea. Formado em Ciência Política e Inglês em Aix-en-Provence, na França, obteve posteriormente um diploma de estudos avançados (DEA) em Linguística e um doutorado em Línguas e Culturas Regionais. Professor da Universidade das Antilhas, onde também foi decano da Faculdade de Letras e Ciências Humanas entre 2013 e 2016, é conhecido por seu compromisso literário com a língua crioula. Pioneiro da literatura escrita em crioulo martinicano, publicou, em 1979, seu primeiro livro, Jik dèyè do Bondyé (Pelas costas de Deus), seguido por Bitako-a (1985), Kòd Yanm (A rama do inhame, 1986) e Marisosé (Libélula, 1987). Em 1988, publicou em francês Le Nègre et l’amiral, romance ambientado na Martinica durante a Segunda Guerra Mundial, que recebeu o Prêmio Antigone. No ano seguinte, ao lado de Jean Bernabé e Patrick Chamoiseau, coassinou o manifesto Éloge de la créolité, marco do movimento da crioulidade. Autor de uma vasta obra em crioulo e francês, recebeu o Prêmio Novembre por Eau de café, em 1991, e o Prêmio Carbet do Caribe por L’Allée des soupirs, em 1994. Em colaboração com Patrick Chamoiseau, publicou ainda Lettres créoles (1991).

Sobre o tradutor

Henrique Provinzano Amaral, nascido em Ribeirão Preto, SP, em 1993, é tradutor, pesquisador e poeta. Doutor em Letras Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio doutoral na Université Sorbonne Paris Nord, atua como professor de Língua, Literatura e Tradução em Francês na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É autor dos livros de poemas Quatro cantos (Patuá, 2020) e As lágrimas das aves migratórias (Jabuticaba, no prelo). Como tradutor e pesquisador, dedica-se sobretudo às literaturas caribenhas francófonas, tendo organizado a antologia Estilhaços: antologia de poesia haitiana contemporânea (Selo Demônio Negro, 2020), além de ter traduzido obras de Édouard Glissant, Jan Mapou, Jean D’Amérique, Souleymane Bachir Diagne, Sam Bourcier e Patrick Chamoiseau, entre outros.


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