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Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil
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Tom Cardoso
240 p. - 16 x 23 cm
ISBN 978-65-5525-277-4
2026
- 1ª edição
Nascido em 1942, filho de um médico e de uma professora, Gilberto Gil Passos Moreira estudou numa escola metodista em Salvador, formou-se em Administração de Empresas pela Universidade da Bahia e foi trabalhar como trainee da Gessy Lever em São Paulo. Hoje ele é reconhecido mundialmente como um dos maiores nomes da música brasileira, uma figura adorada por multidões, capaz de lotar estádios e até ser tema de um reality show.
Este novo livro de Tom Cardoso, experiente jornalista e autor de perfis de Nara Leão, Caetano Veloso e Chico Buarque, busca captar as múltiplas facetas deste artista genial — não com um estudo exaustivo de sua biografia e produção fonográfica, mas sim por meio de seis capítulos temáticos em que são habilmente entrelaçados, num vaivém cronológico, os fatos mais polêmicos e significativos que moldaram a personalidade do músico.
Mas quem é Gilberto Gil? O menino educado em uma família negra de classe média procurando se integrar à sociedade dos brancos, ou o militante da negritude de Refavela? O autor de composições politizadas como “Roda” e “Procissão”, ao estilo CPC da UNE, que participou até de uma passeata contra a guitarra elétrica, ou o vanguardista intérprete de “Domingo no Parque” e protagonista do Tropicalismo? O “inocente útil” perseguido pelo regime militar, ou o criador do irônico samba “Aquele Abraço” e do afiado texto-manifesto “Recuso + aceito = receito”? O ativista da contracultura, ou o gestor público que presidiu a Fundação Gregório de Mattos, foi candidato a prefeito de Salvador e se tornou ministro da Cultura? O homem de espírito livre e vários casamentos, com Belina, Nana, Sandra e Flora, ou o chefe de um bem-estruturado clã familiar? Na verdade, constatamos neste livro, que nunca foge da controvérsia, que Gil é tudo isso e muito mais, pois, como já disse Torquato Neto, “Há diversas formas de se fazer música: Gilberto Gil prefere todas”.
Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil — que já no título indica a verve de Tom Cardoso — traz ainda a discografia completa do artista e uma rica iconografia.
Texto orelha
Tom Cardoso constantemente lembra seus leitores, sem deixar de transparecer certo orgulho, que não promove cerimônias de beija-mão para os personagens sobre os quais escreve biografias e perfis biográficos, já muitos deles do mundo da canção popular. Mergulhando neste seu Nem tanto esotérico assim: seis vezes Gil, conseguimos imaginar o porquê. Aparecem no livro passagens que o grande compositor, dá para apostar, preferiria esquecer, ou ao menos não ver destacadas entre tantos elementos, vida e obra, sempre a receber (justa) aclamação. Um texto chapa-branca necessariamente teria composição muito distinta, mais próxima às expectativas da pessoa sobre quem se escreve. Não estamos aqui supondo de modo leviano que Gilberto Gil seja particularmente dado a apreciar puxa-saquismo ou a querer enterrar coisas que fez. Não. É apenas natural, trate-se de quem for, que os fatos de sua vida que dada pessoa julgue os mais relevantes para serem contados não precisem ser condizentes com o mais interessante para o leitor. E é nesse ponto que a notória qualidade do trabalho de Tom Cardoso — já premiada com um Jabuti e, mais importante, com a fidelização de expressivo número de leitores que acompanham sua produtividade impressionante — se faz valer, na seleção rigorosa de informações a serem dispostas com enorme fluidez. Em termos simples: o texto deste livro é tão gostoso de ler quanto informativo. Não há aqui a necessidade exaustiva e cronológica das grandes biografias. Seguindo o bem-sucedido modelo de seus livros sobre Cae-tano Veloso e Chico Buarque, são dispostos seis temas da vida do compositor, trabalhados como fossem seis reportagens de longo fôlego: “Gil e a política”, “Gil e o poder”, “Gil e a censura”, “Gil e a negritude”, “Gil e a família” e “Gil e a música”. Claro, não se esgota a vida do compositor nesses capítulos, nem há essa pretensão, ainda mais quando se lida com personagem tão rico. Só na canção popular, gênero artístico que o tornou célebre, Gilberto Gil já é multifacetado o suficiente, atingindo excelência em diferentes áreas de atuação: como compositor de música e letra juntas, como letrista para músicas alheias, como melodista para versos de outros compositores, como cantor e como instrumentista. Nessa soma específica de atributos, difícil encontrar par na MPB. Gil ataca em todas as frentes da canção, e ainda se mostra como criador de movimento artístico, embaixador cultural, político, imortal da ABL... Como dar conta de tudo? Bem, para que dar conta de tudo? Trabalhando com recortes temáticos, Tom Cardoso consegue uma profundidade rara em obras do gênero, num registro com pitadas de ensaio e crônica, em que os lances de humor não comprometem a seriedade com que se debruça sobre o material pesquisado. Dá vontade de ter 60 vezes Gil. Não sendo um livro de simples louvação, temos aqui um volume de evidente grande respeito por Gilberto Gil e sua obra — e por extensão, por toda a canção brasileira. Há mais deferência num livro assim, que não omite passagens espinhosas e lances até contraditórios do personagem central, do que seria visto num texto cuja primeira aspiração fosse agradar ao biografado. O compositor popular não é tido como simples personagem de entretenimento, que se deve lisonjear de maneira frívola, deixando todos os envolvidos felizes até que, pouco tempo depois, tudo caia no esquecimento. Aqui se trata de um artista, personagem central de nossa cultura e da formação da identidade nacional contemporânea, que merece ter considerada a complexidade comum a todas as grandes figuras. André Simões
Sobre o autor
Tom Cardoso nasceu no Rio de Janeiro e é jornalista com vasta experiência na imprensa paulistana. Autor, entre outros livros, de Outras palavras: seis vezes Caetano (2022) e Trocando em miúdos: seis vezes Chico (2024), além das biografias do jornalista Tarso de Castro (2005), do jogador Sócrates (2014) e das cantoras Nara Leão (2021) e Cássia Eller (2025), foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti 2012 com o livro-reportagem O cofre do Dr. Rui (2011), que narra o assalto ao cofre de Adhemar de Barros, em 1969, comandado pela VAR-Palmares.
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