Fátima Bianchi é professora da área de Língua e Literatura Russa do curso de Letras da FFLCH-USP. Entre 1983 e 1985 estudou no Instituto Púchkin, em Moscou. Defendeu seu mestrado e seu doutorado na área de Teoria Literária e Literatura Comparada, também na USP. Em 2005 fez estágio na Faculdade de Filologia da Universidade Estatal de Moscou Lomonóssov. Traduziu Ássia (2002) e Rúdin (2012), de Ivan Turguêniev; Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin (2003); e Uma criatura dócil (2003), A senhoria (2006), Gente pobre (2009), Um pequeno herói (2015), Humilhados e ofendidos (2018) e Crônicas de Petersburgo (2020), de Fiódor Dostoiévski, além de diversos contos e artigos de crítica literária. Assinou também a organização e apresentação do volume Contos reunidos, de Dostoiévski (2017). É editora da RUS — Revista de Literatura e Cultura Russa, da Universidade de São Paulo, e ocupa o cargo de coordenadora regional da International Dostoevsky Society.
Publicada em 1857, a novela Ássia é um dos exemplos mais acabados do talento de Ivan Turguêniev, um dos maiores escritores russos, em revelar, sem panfletarismo, as estruturas mais profundas da sociedade de seu país. O enredo aparentemente singelo — em que um nobre russo viajando pela Alemanha faz amizade com um casal de irmãos, também russos, e se apaixona pela irmã mais nova, Ássia — traz, em uma camada mais profunda, uma discussão sobre as relações entre as elites e os servos emancipados. Ao mesmo tempo, o livro aborda o tema do “homem supérfluo”, aquela geração de jovens da nobreza russa que tinha grandes ideais, mas era incapaz de colocá-los em prática. No posfácio ao volume, a tradutora Fátima Bianchi aponta os fortes elementos autobiográficos inscritos na narrativa, e demonstra que esta novela concisa ocupa um lugar central na vida e obra de Turguêniev.
Este volume, que traz escritos de Dostoiévski inéditos no Brasil, inclui uma apresentação que o autor redigiu em 1845 para anunciar a revista de humor O Trocista (logo interditada pela censura) e os cinco folhetins publicados em um jornal de São Petersburgo, entre abril e junho de 1847, intitulados Crônicas de Petersburgo. Nestes textos saborosos e provocadores, em que a própria cidade assume o papel de protagonista, podemos observar alguns traços de estilo — a dicção veloz, a mescla de registros, a aguda análise psicológica — que mais tarde se tornariam marcas inconfundíveis do autor de Crime e castigo.
Após dez anos de exílio na Sibéria, Fiódor Dostoiévski retorna a Petersburgo em fins de 1859 determinado a escrever um romance genial, que lhe permita recuperar o prestígio de outros tempos. Esse romance é Humilhados e ofendidos, publicado em folhetim em 1861, livro que ocupa uma posição-chave na sua produção por ser um verdadeiro laboratório de temas e motivos que ressurgirão em suas obras de maturidade. Tendo como narrador a figura do jovem romancista Ivan Petróvitch, cuja vida guarda muitas semelhanças com a sua, Dostoiévski criou uma obra ao mesmo tempo cativante e de denúncia social, um verdadeiro turbilhão de afetos no qual o sentimento de cada personagem alcança a sua intensidade mais elevada.
Esta coletânea reúne os 28 contos de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), do primeiro ao último ano de sua trajetória como escritor, todos eles em traduções diretas do russo, incluindo vários textos inéditos no Brasil. Procurando ser fiel ao espírito de sua obra, foi utilizada aqui uma concepção ampla de "conto", que inclui também breves novelas, narrativas autônomas dentro de romances e peças jornalísticas com viés ficcional. O volume traz ainda uma bela apresentação de Fátima Bianchi, que analisa a importância das narrativas curtas na obra de Dostoiévski, versões alternativas de "O ladrão honrado" e "A mulher de outro e o marido debaixo da cama", e uma cronologia detalhada da vida do escritor, mapeando a produção de cada um de seus contos, novelas e romances.
Escrita em 1849 - quando o autor estava preso, acusado de conspirar contra o tsar Nicolau I -, Um pequeno herói é uma das obras mais luminosas de Fiódor Dostoiévski e uma excelente introdução ao seu universo. Com uma prosa sensível e arrebatadora, a novela descreve o despertar do sentimento amoroso e da individualidade de um menino de onze anos. Em uma casa de campo nos arredores de Moscou, durante uma temporada de verão, a alta sociedade russa passa o tempo entre piqueniques, jogos de salão e bailes. Nesse cenário, Dostoiévski contrapõe a profundidade de sentimentos do menino ao mundo fútil e vazio das convenções sociais. Uma pequena joia a ser redescoberta na tradução, direta do russo, de Fátima Bianchi, ilustrada com gravuras de Marcelo Grassmann.
Publicado em 1856, Rúdin, romance de estreia de Turgêniev, foi prontamente aclamado pela crítica. O autor retrata aqui o "homem supérfluo", motivo central da literatura russa de então, lançando um olhar simultaneamente terno e irônico sobre a juventude de sua própria geração, que, inspirada pelos ideais democráticos que chegavam da Europa, foi tolhida pelo conservadorismo da Rússia de Nicolau I.
Romance de estreia de Dostoiévski, Gente pobre, publicado em 1846, foi imediatamente aclamado pelo público, fazendo de seu autor, praticamente da noite para o dia, um escritor consagrado. Por meio da troca de cartas entre um funcionário menor de uma repartição pública de Petersburgo e sua vizinha, uma jovem órfã injustiçada, o autor de Crime e castigo explora a fundo as variações de tom e tratamento, de saltos e encadeamentos na ação, para criar um texto comovente e, no dizer de Boris Schnaiderman, "marcado pela consciência da injustiça social". aolp
Uma fascinante novela de Dostoiévski, ainda pouco conhecida pelo grande público. De fato, as inovações formais do autor - bem como a trama que liga o sonhador Ordínov à figura misteriosa de Katierina - só foram compreendidas no século XX, quando os críticos reconheceram neste livro uma pequena obra-prima que antecipa os grandes romances do autor.