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Maria Valéria Rezende
Posfácio de Roberto Zular
88 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-265-1
2025
- 1ª edição
Partindo da produção literária de autores consagrados, como Machado de Assis, Kafka e Guy de Maupassant, em Recapitulações Maria Valéria Rezende borra as fronteiras entre “escrita” e “reescrita”. Mais do que isso, ao atualizar um conto com as cores de nossa época ou propor novos desfechos para estórias conhecidas, questiona a ideia de “originalidade” nas criações, já que toda obra se nutre de um vasto repertório de outras grandes obras, que por vezes ditam cânones e fazem escola.
É com o despojamento de uma escritora madura e a grandeza dos que não se negam ao diálogo que a autora se aventura no estimulante exercício literário de habitar outras poéticas, de compor com muitas mãos. E, nas palavras de Roberto Zular, “faz isso com muita leveza, seja por esse dom de contadora de histórias, seja por encontrar uma dicção precisa para cada uma dessas experiências ao mesmo tempo literárias e que, no entanto, parecem ir além da literatura”. Nesse movimento, a ficção se torna “lugar de atravessamento do que é escrita, mas também oralidade, do que é passado, mas também presente, do que é essa metamorfose contínua da literatura e da vida”.
Nascida em Santos, SP, em 1942, educadora popular com atuação em diversas regiões do país e do mundo, escritora e vencedora de importantes prêmios literários, Maria Valéria Rezende é hoje um dos nomes mais expressivos da literatura contemporânea brasileira. Com estas doze narrativas curtas, reafirma o seu talento de contista, com erudição e sem abrir mão das boas risadas que a literatura pode proporcionar.
Texto orelha
Em Recapitulações, Maria Valéria Rezende nos oferece uma delícia a cada página. Uma bela brincadeira literária, ousadia que só uma grande escritora como ela pode cometer (ou conceber?). São doze contos que passam por grandes obras da literatura — quase sempre em poucas linhas — e conseguem transformá-las em outras aventuras literárias dessemelhantes, mas bem aparentadas. Às vezes mimetizando a própria escrita do mestre original, outras seguindo em frente sem firulas. Seja como for, são todas peças literárias de grande maestria, como a dos autores que as inspiraram. Ou, pode-se dizer, inusitadas homenagens a eles. É assim que Maria Valéria recria Gregor Samsa ao revés, onde ele é o mesmo e é também outro. Se pudesse lê-lo agora, Kafka talvez se confundisse, “Será que é isso mesmo?”. Em seguida, ela faz de um zeloso bibliotecário um obcecado pela obra do velho Machado, e nos põe um grande sorriso nos lábios. Não contente, destrói a quadrilha perfeita de Carlos Drummond de Andrade (ô dó!), e, sem se intimidar (o que, aliás, é uma característica sua), revela o ódio que um personagem de José Saramago devota a seu criador. Em outro conto, acende o fogo morto de um engenho sem filho macho, ao que José Lins do Rego, se vivo fosse, só restaria sorrir diante da perspicácia de tamanha escritora. Já Capitu — a eterna — vai a Paris e de lá nos entrega o segredo do trio amoroso do qual foi peça-mor e que, até hoje, tanta discussão provoca. Valéria esclarece direitinho o que aconteceu (ou será que não?). De Sansão descobrimos o segredo de sua força, que não estava em seus cabelos trançados, e que não foi Dalila a culpada pela destruição do lendário templo. Ainda de Machado, Valéria pressente algo de perturbador na memória da infância do Bruxo — e cria outra dúvida quase tão impactante como a que nos deixou Capitu. Quem diria que um singelo bondinho de Santa Tereza poderia nos levar a tanto! Temos ainda a maravilhosa descoberta do legado de um tipógrafo, e vemos os versos de Cassiano Ricardo selando a formação de um garoto em homem feito. Culpa do brilho da lua na rua torta, ela nos diz, para então nos levar, com Maupassant e um atalho, a um drama social sem saída. Por fim — e querendo mais — revivemos Blow-up, o famoso filme de Antonioni, com um fotógrafo obcecado por janelas que não revelam nada (ou tudo?). Mas não paremos por aqui. Eu ficaria em falta se não dissesse que este é também um livro inspirador. Ele nos mostra que livros amados e autores admirados não são monstros sagrados. Ao contrário. Eles abrem as portas da imaginação, convidando quem os lê a entrar e se aventurar por suas entrelinhas, ou simplesmente se deleitar com quem magistralmente fez isso e nos deu de presente.
Vamos embarcar? Maria José Silveira
Sobre a autora
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos, SP, onde viveu até os dezoito anos. É escritora, tradutora, professora e pedagoga, além de freira da Congregação de Nossa Senhora, Cônegas de Santo Agostinho. Formou-se em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, na França, e em Pedagogia pela PUC-SP, obtendo posteriormente o mestrado em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba. Desde jovem, engajou-se em movimentos sociais e de educação popular, integrou a direção nacional da Juventude Estudantil Católica e, após o golpe de 1964, acolheu militantes perseguidos pelo regime. Ao longo das décadas seguintes, atuou em diversas regiões do Brasil e do exterior. Viveu no sertão de Pernambuco, mudou-se para a Paraíba em 1976 e reside em João Pessoa desde 1988. Estreou na literatura em 2001, com Vasto mundo, e reúne uma obra premiada, tendo recebido três Jabutis, além dos prêmios Casa de las Américas e São Paulo de Literatura por Outros cantos em 2017.
Veja também
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