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Bernardo Ceccantini
112 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-275-0
2026
- 1ª edição
Já no verso de abertura — “Hoje, andando na rua” — o leitor fica avisado: este é um livro de quem gosta de percorrer e colecionar espaços, aberto aos ritmos do presente. De fato, Vida sortida, segundo livro de Bernardo Ceccantini, que estreou na poesia com Na quina das paredes (2017), obra semifinalista do Prêmio Oceanos, é todo ele atravessado por uma espécie de vontade andarilha.
Se muitos poemas extraem sua matéria de lugares públicos — das ruas, praças, bares e balcões do centro de São Paulo —, há também fôlego para a exploração sensível de outros recessos — os quartos, as casas, o interior dos carros, as viagens dentro e fora da família, o refeitório e o almoxarifado do trabalho, por exemplo. Dessa mistura de espaços e atmosferas emerge um lirismo sagaz e zombeteiro, que contamina os amores, os êxtases, as perplexidades, as interrogações, a melancolia, a indignação, a revolta e até mesmo os momentos de graça ou loucura, conferindo a estas páginas um alto poder de encantamento e de insubordinação.
Aqui e ali o poeta acena a Manuel Bandeira, Antonioni, Frank O’Hara, e também a anônimos passantes, frequentadores das ruas, pois como ele mesmo declara, “Eu sou só eu e somos outros/ e nossa memória anda sempre pra frente/ como uma bicicleta curiosa”. É essa curiosidade errante, capaz de conjugar os tempos fora da ordem cronológica, que leva o poeta a vagar pela cidade com sua caixa de palavras, refazendo no século XXI a pergunta que a poesia se coloca desde sempre: onde e como habitar o mundo?
Texto orelha
O poeta deambula pela cidade. Compartilha conosco sua São Paulo, enquanto anda pelas ruas: tantas impressões de gentes e lugares que reconhecemos, agora tingidas por uma sensibilidade travessa, porosa ao mundo. Ritmo de conversa, prosódia da fala, quando se põe a observar as personagens e ambientes à sua volta em devaneios do caminhante solitário. Supermercado, pizzaria, lotérica, praça, biblioteca, bar, táxi, ônibus, restaurante self-service. Uma voz poética espreitando pelas esquinas em descrições reimaginadas pela reflexão lírica, às vezes com espírito meio surreal. As cenas cotidianas comparecem envolvidas por novo colorido, como se a poesia projetasse um holograma sobre a realidade. O livro exala uma disposição aberta — seja nas breves alegrias que interrompem o ritmo habitual, seja para os conflitos que a vida traz. Embora o cansaço também sobrevenha nas relações rotineiras, existe alguma fonte de encanto. Momentos de mínimas iluminações: um garçom gentil, o pôr do sol na praça, o vestido florido da namorada. E, por outro lado, o reconhecimento do tédio, do desencontro, na metrópole. Lembranças de infância e adolescência, muito vívidas, se entrelaçam com o presente. Sempre um pouco gauche, mas tentando a terrível mudança para São Paulo, o menino “Sente uma saudade esquisita que parece que vem da música,/ parece até que vem do futuro”. Pai, irmão, mãe, avó, assomam em meio ao reconhecimento da intimidade mesclada a estranhamentos. Quem sabe esse olhar de susto e prazer na conquista dos meandros da grande cidade provenha dessa experiência de leve estrangeiridade — sensações que, para serem descritas, soam um tanto absurdas porque as palavras usuais não as alcançam. Há algo de brincadeira nessa descoberta: andar no metrô e todas as relações mentais malucas que ele pode provocar. Refazer o real de modo onírico, percebendo de maneiras inusitadas o ramerrão costumeiro. Em Vida sortida, há poemas que evocam os tempos de confinamento da covid, repetitivos em sua solidão, enquanto outros se referem a viagens em que ocorrem surpresas de pessoas e experiências. Uma das maiores qualidades desta poesia é a capacidade de cravar imagens tão originais quanto precisas para revelar universos interiores e exteriores: “Você é a ilha inventada da minha infância”. Alguns versos se afinam com o timbre bandeiriano, traduzindo imagens do poeta para nossa existência chinfrim. Puro lirismo: o poeta como criador do dia, germinando constelações de sementes pela terra... acontecimentos ínfimos banhados por ternura. Ora a mexerica que se assemelha a um “planeta anão sobre a mesa,/ em seu couro verde e rugoso” a oferecer suas “pétalas almofadadas” (rediviva maçã de Bandeira), ora a “Ladeira da Memória”, onde pombas antigas pousam, passeiam — tudo remonta à capacidade sensível e sensória à beleza cotidiana: poemas para tocar e cheirar e perceber a paisagem, o som ao redor... As aventuras do cotidiano podem ser tragicômicas. Episódios prosaicos vêm tisnados por um halo de amor e humor, em casos como uma situação familiar complicada ou uma reconciliação. Até mesmo mortes, feridas, acidentes acorrem sem empostação. A vida vivida em suas pequeninas belezas, graças à capacidade para a presença alerta que caracteriza a poesia de Bernardo Ceccantini. O que se vê, sem enxergar, desperta sua atenção: cenários urbanos, personagens do dia a dia na rua e no trabalho. O jardineiro, o cara do almoxarifado, o sucateiro, o louco da praça, assim como o temor da violência e da miséria com as quais se choca esse passante. Então, advém o clic do poema: em meio ao vaivém da cidade, que rumor de rio soterrado só aquele homem andrajoso pressentiu sob o viaduto?
Viviana Bosi
Sobre o autor
Bernardo Ceccantini nasceu em Assis, SP, em 1995, e formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo em 2019. Além de garçom, professor de muay thai, fotógrafo e pizzaiolo, foi coordenador de comunicação da Biblioteca Mário de Andrade. É autor de Na quina das paredes (7letras, 2017, semifinalista do Prêmio Oceanos) e publicou poemas na Revista Pessoa, na Revista Rosa e na Revista Estudos Avançados da USP.
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