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Águas de março
Sobre a canção de Tom Jobim
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Ensaios de Augusto Massi, Arthur Nestrovski e Walter Garcia
Depoimentos de Tom Jobim
Fotografias de Ana Lontra Jobim
136 p. - 16 x 23 cm
ISBN 978-65-5525-269-9
2026
- 1ª edição
Antonio Carlos Jobim (1927-1994) é um dos mais importantes compositores do cancioneiro popular no século XX. Fez para nossa música o mesmo que Pelé para o futebol brasileiro, tornando-a conhecida e admirada em todo o mundo. Este livro busca compreender uma de suas mais importantes canções. Composta há mais de 50 anos, “Águas de março” continua sendo — e em várias línguas — gravada, cantada, cantarolada. Qual o seu segredo? Os três ensaios aqui reunidos buscam desvendar a conjunção de elementos que a tornam tão fascinante. São musicais e poéticos, sobretudo. Mas também remetem à biografia do compositor e às fontes de nossa cultura em que bebeu. Assinados por Augusto Massi, Arthur Nestrovski e Walter Garcia, os textos formam uma sequência que vai adensando passo a passo nosso entendimento da canção. Completam o volume depoimentos de Tom Jobim e imagens de Poço Fundo — o lugar onde “Águas de março” nasceu — pelas lentes de Ana Lontra Jobim, além de uma reconstituição do primeiro registro, fotos e materiais impressos de época.
Texto orelha
“É pau, é pedra”. Bastam essas poucas palavras e acordes para que nossos ouvidos reconheçam uma das mais complexas canções de Tom Jobim. Março de 1972 mal começava e numa noite no sítio de Poço Fundo, região serrana do Rio de Janeiro, “Águas de março” surgiu sem avisar, tomando a vida de seu compositor nas semanas que seguiram até que fosse registrada em estúdio cerca de um mês depois. Meio século se passou, a canção ganhou o mundo e continua viva em inúmeras regravações. E sobretudo cantarolada — até assobiada — por gerações de ouvintes. “Waters of march”, “Les eaux de mars”, “La pioggia di marzo”, “Aguas de marzo”, “Wasser des März” etc., uma busca aleatória no YouTube mostra, em gravações caseiras ou profissionais, o quão presente essa canção está em nossa memória musical, muitas vezes associada a momentos particulares na vida de cada um. Este livro reúne três ensaios que, em sequência, vão adensando pouco a pouco nossa compreensão de “Águas de março”. O abre-alas é “Mestre de obras, obra de mestre”, assinado por Augusto Massi. Poeta e crítico literário, é nessa dupla condição que esquadrinha finamente a letra da canção. Nela se harmonizariam a fragmentação e o longo arco de um ciclo que aponta para promessas de vida. O ensaio seguinte é de Arthur Nestrovski, músico que transita com naturalidade entre o erudito e o popular, possuindo também todos os recursos literários para traduzir o universo sonoro em palavras. “O samba mais bonito do mundo” vai pela primeira vez ao ponto, ou seja, ao “claro vínculo entre letra e música, fundamental para se entender a forma e o sentido da canção”. Além disso, o autor revela canais subterrâneos de “Águas de março” com a música de Schubert, Schumann, Chopin e, para nossa surpresa, também com uma “linha cromática trágica” do barroco. No terceiro ensaio da sequência, “A construção de ‘Águas de março’”, Walter Garcia, também ele músico e um estudioso na Bossa Nova, de saída nos põe diante de uma novidade contraintuitiva: a influência de “Construção” em “Águas de março”, de Chico Buarque em Tom Jobim, de um compositor que amadurece em um veterano. Como se não bastasse, explora de modo inédito variadas dimensões musicais e extramusicais onde, graças ao espraiamento de nosso modernismo, popular e alta cultura se combinam para recriar artisticamente um sentimento transitório de ruína. O volume se completa com dois depoimentos de Tom Jobim, fotografias de Poço Fundo — o lugar onde “Águas de março” foi composta — por Ana Lontra Jobim, além de material iconográfico de época. Na apresentação ao conjunto, Milton Ohata reconstitui, cinquenta anos depois, o primeiro registro da canção a partir de conversas com quem dele participou e sugere que o compositor, o cronista Rubem Braga e o arquiteto-urbanista Lucio Costa compartilhavam o mesmo sentimento diante do mundo natural e do seu significado na formação do Brasil.
Sobre o organizador
Milton Ohata é editor na Editora 34, doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e organizador de Um crítico na periferia do capitalismo: reflexões sobre a obra de Roberto Schwarz (2007) e Eduardo Coutinho (2013). Arthur Nestrovski é violonista, compositor e ensaísta. Foi diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (2010-2022) e do Festival de Inverno de Campos do Jordão (2012-2022). Formado em música pela Universidade de York (Inglaterra) e Ph.D. em literatura e música pela Universidade de Iowa (EUA), foi professor titular na PUC-SP, articulista da Folha de S. Paulo e editor da Publifolha. Autor de Tudo tem a ver: literatura e música (2019) e Outras notas musicais (2009), entre outros. Lançou os CDs solo Jobim violão (2008), Chico violão (2009) e Violão violão (2022), além do álbum Jobim canção, com Paula Morelenbaum (2024). Augusto Massi é crítico literário, poeta e professor de literatura brasileira na FFLCH-USP. Na editora Duas Cidades, entre 1988 e 1991, coordenou a coleção de poesia Claro Enigma. Foi diretor editorial da Cosac Naify. Como poeta, publicou Negativo (1991) e A vida errada (2001). Na área de literatura, organizou entre outros Poesia completa (2014, 2ª edição) de Raul Bopp, Retratos parisienses (2013) de Rubem Braga e Os sabiás da crônica (2021), antologia com textos de Vinicius de Moraes, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e José Carlos Oliveira. Na área de artes plásticas, foi organizador de Gaveta de guardados (1998), memórias do pintor Iberê Camargo, e Eu vi o mundo (2011), memórias do pintor Cícero Dias. Com Júlio Castañon Guimarães, reuniu a Poesia traduzida (2011) de Carlos Drummond de Andrade. Com Erwin T. Giménez, Marcus Mazzari e Murilo Marcondes de Moura, organizou Reflexão como resistência: homenagem a Alfredo Bosi (2018). Walter Garcia é violonista, compositor e professor no IEB-USP. Publicou “Da discussão é que nasce a luz”: canção, teatro e sociedade (2020), Melancolias, mercadorias: Dorival Caymmi, Chico Buarque, o pregão de rua e a canção popular-comercial no Brasil (2013) e Bim Bom: a contradição sem conflitos de João Gilberto (1999). Organizou o volume João Gilberto (2012). Foi curador da exposição “Bossa 50”, no Pavilhão da Bienal, São Paulo, em 2008. Lançou em 2016, com Marília Calderón, o disco Na cachola. Na área teatral, colaborou com a Companhia do Latão, a Companhia do Feijão e o Coletivo de Teatro Alfenim, dentre outros grupos.
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