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Teatro completo V
Helena, As Fenícias, Orestes
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Eurípides
Edição bilíngue
576 p. - 16 x 23 cm
ISBN 978-65-5525-268-2
2026
- 1ª edição
Poeta de um mundo em crise, Eurípides é, sem dúvida, o trágico grego que mais se aproxima da sensibilidade contemporânea. Em seu cosmo instável e contraditório, em que alianças familiares e comunitárias se encontram sob ameaça, não há valores absolutos — assim, em suas peças, lealdade e traição, coragem e covardia, paixão e cálculo frio se afirmam lado a lado.
Helena, que abre este volume, inverte singularmente as perspectivas da tradição: aqui não é a Helena real que deu origem à Guerra de Troia, mas apenas sua imagem, um simulacro seu; e, no desenrolar da obra, as falas da Helena real subvertem por completo a personagem retratada por Homero na Ilíada.
Em As Fenícias, o pacto entre irmãos, que é também um pacto pela alternância no poder, cai por terra e leva a funestas consequências, numa reflexão aguda sobre o fundo irracional da alma humana. Já Orestes põe em cena outro par de irmãos, Electra e o próprio Orestes, perseguido pela loucura após ter assassinado a mãe e o padrasto — mas quando tudo parece apontar para a catástrofe, intervenções divinas reconfiguram benevolamente seus destinos.
Encenadas em Atenas entre 412 e 405 a.C., as três peças reunidas no quinto volume do Teatro completo de Eurípides constituem um legado de beleza e originalidade da civilização grega, vertido para o português diretamente do original pelo poeta e professor Jaa Torrano, titular de Língua e Literatura Grega da Universidade de São Paulo.
Eurípides, Teatro completo, estudos e traduções de Jaa Torrano:
Vol. I: O Ciclope, Alceste, Medeia (2022)
Vol. II: Os Heraclidas, Hipólito, Andrômaca, Hécuba (2022)
Vol. III: As Suplicantes, Electra, Héracles (2023)
Vol. IV: As Troianas, Ifigênia em Táurida, Íon (2024)
Vol. V: Helena, As Fenícias, Orestes (2026)
Vol. VI: As Bacas, Ifigênia em Áulida, Reso (a sair)
Texto orelha
Eurípides, ao lado de Ésquilo e Sófocles, é considerado um dos três grandes dramaturgos gregos. A Editora 34, dando prosseguimento à publicação do Teatro completo de Eurípides com estudos e traduções de Jaa Torrano, traz reunidas neste quinto volume as tragédias Helena, As Fenícias e Orestes, seguindo a cronologia consensual da produção literária deste autor. A tragédia Helena apresenta uma versão da história da heroína homônima distinta daquela consagrada pela tradição homérica. Diferentemente do que se lê na Ilíada e na Odisseia, nesta tragédia euripidiana Helena jamais foi a Troia: conduzida por Hermes ao Egito, foi confiada à proteção do rei Proteu. Páris levou para Troia uma imagem de Helena moldada em éter pela Deusa Hera, e esse simulacro foi o verdadeiro responsável pela guerra. Com a morte do rei Proteu, seu filho Teoclímeno decide desposar Helena, que, fiel ao marido, recusa tal união e busca abrigo como suplicante junto ao túmulo do antigo rei. Terminada a guerra, Menelau, esposo de Helena, chega náufrago ao Egito, acompanhado de alguns companheiros e levando consigo a imagem de Helena, que ele toma pela verdadeira. Dá-se então a cena de reconhecimento entre os esposos longamente separados. Ao longo da tragédia, a noção mítica de justiça é explorada num jogo ambíguo entre aparência e opinião, entre a Helena real e a Helena ilusória, de modo a mostrar como a entendem de modo diferente Deuses e mortais. O título da tragédia As Fenícias se deve ao coro composto por mulheres fenícias, que, a caminho de Delfos, enviadas como oferenda ao Deus Apolo, se encontram em Tebas. Há uma disputa pelo trono tebano entre os irmãos Etéocles e Polinices, filhos de Édipo e Jocasta. Na tragédia Édipo Rei de Sófocles, após a revelação do parricídio e do incesto, Jocasta se suicida e Édipo se cega e se exila. Neste drama de Eurípides, ambos permanecem vivos na cidade, onde se dá a luta dos filhos pelo poder. Etéocles exerce o governo e se recusa a cedê-lo ao irmão, contrariando o prévio acordo de alternância no poder, Polinices reúne um exército estrangeiro e ataca a pátria, reivindicando ambos justiça para suas causas. Assim, no entrecho e desfecho da tragédia, se mostra a ambiguidade da Justiça de Zeus, que se realiza de modo obscuro e devastador para os mortais — sendo, no entanto, reconhecida como tal. Em Orestes, o herói homônimo encontra-se atormentado pelas Deusas Erínies, que o perseguem por ter matado sua mãe, Clitemnestra, em vingança pela morte do seu pai, o rei Agamêmnon, conquistador de Troia. As implicações e consequências desse ato — já tematizadas por Ésquilo em As Coéforas — assumem, na versão euripidiana, um caráter mais marcadamente político. Privado do apoio de seus familiares, com exceção da irmã Electra e do fiel primo Pílades, Orestes se vê julgado e condenado à morte pela assembleia de sua cidade natal, Argos. Como extremo recurso, Orestes, Electra e Pílades concebem um plano para se vingar de seu tio Menelau, por não ter intervindo em seu favor, e fazem reféns Helena e sua filha Hermíone. O dever de vingança imposto pelo estado tribal colide com a justiça administrada pela pólis, gerando tensões e impasses explorados nesta tragédia, que problematiza os diversos sentidos e implicações da justiça no horizonte político da Atenas do século V a.C. Os estudos e traduções de Jaa Torrano, articulados de modo coerente, ressaltam a centralidade da noção mítica de justiça e revelam a unidade de visão de mundo que se documenta nas tragédias de Eurípides. Beatriz de Paoli Departamento de Letras Clássicas da UFRJ
Sobre o autor
Eurípides nasceu por volta de 480 a.C. na ilha de Salamina, filho de Mnesarco, um proprietário de terras. Junto com Ésquilo e Sófocles foi um dos três grandes autores da tragédia clássica grega. Sua estreia num concurso teatral ocorreu em 455 a.C., ano da morte de Ésquilo. Das 93 peças que lhe são atribuídas, chegaram até nós dezenove, oito das quais datadas com precisão: Alceste (438 a.C.), Medeia (431 a.C.), Hipólito (428 a.C.), As Troianas (415 a.C.), Helena (412 a.C.), Orestes (408 a.C.), Ifigênia em Áulis e As Bacantes (405 a.C.). Três delas foram representadas postumamente em Atenas: Ifigênia em Áulis, Alcméon em Corinto e As Bacantes. Morreu em 406 a.C., na Macedônia, para onde teria se transferido a convite do rei Arquelau.
Sobre o tradutor
José Antonio Alves Torrano (Jaa Torrano) nasceu em Olímpia, SP, em 1949. Após morar em Orindiúva e Catanduva, mudou-se para São Paulo em 1970, onde lecionou português e filosofia em curso supletivo, fez a graduação em Letras Clássicas (Português, Latim e Grego) na Universidade de São Paulo entre 1971 e 1974, e tornou-se auxiliar de ensino de Língua e Literatura Grega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1975. No Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas desta universidade defendeu o mestrado em 1980, o doutorado em 1987 e a livre-docência em 2001. É autor de livros de poesia e de ensaios, e publicou traduções de Hesíodo, Platão, Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Desde 2006 é professor titular de Língua e Literatura Grega na Universidade de São Paulo.
Veja também
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