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Patrick Chamoiseau
Posfácio de Vanessa Massoni da Rocha
120 p. - 14 x 21 cm
ISBN 978-65-5525-270-5
2026
- 1ª edição
Publicado em 2017 na França, Irmãos migrantes é um ensaio e manifesto poético-político no qual Patrick Chamoiseau evoca, de forma impactante, o drama recente — e muito atual — dos refugiados na Europa. Assim fazendo, solidariza-se com cada vida que compõe uma das maiores catástrofes de nosso tempo: as migrações forçadas. O livro, dividido em dezoito breves capítulos escritos num estilo de ensaio livre, constitui um hino à hospitalidade e à tolerância, contra o embrutecimento do mundo.
Com força lírica, nesse manifesto-ensaio a literatura se faz voz e grito, suscita outros “possíveis”, intui novos caminhos. É por meio da imaginação e da criatividade da linguagem que o autor reage à dimensão trágica dos acontecimentos. Valendo-se da poética relacional de Édouard Glissant, que também é a sua, o autor nos coloca diante dos fatos e da humanidade fragilizada de quem os vive, conclamando os leitores a também reagirem, a se implicarem e tomarem parte em um drama que diz respeito a todos os habitantes do planeta.
Patrick Chamoiseau nasceu em 1953 em Fort-de-France, na Martinica. É autor de vários romances, contos e ensaios, e em 1992 ganhou o Prix Goncourt por seu romance Texaco. Hoje ele é uma das vozes mais influentes da literatura caribenha, com uma obra que se inscreve no cruzamento do francês e do crioulo.
Texto orelha
As palavras de Patrick Chamoiseau chegam em boa hora. Em seu encadeamento, versam sobre migração como gesto primeiro, como presente habitado e como poética de futuro. Conversam com o mundo e suas conexões — em ininterrupta imanência —, com poetas (em sentido ampliado) e, fortemente, com a arquitetura de viver sustentada por Édouard Glissant. Numa perspectiva ratificada (também diagnosticada, repensada, redirigida e redigerida) pela contemporaneidade, em meio à violência aniquiladora do capital, da xenofobia e do racismo, em contornos tão antigos quanto atualizados, as pessoas que migram o fazem pela motivação objetiva de uma melhor e mais digna experiência subjetiva (simultaneamente coletiva). Contudo, completamente ao lado disso, o fazem pelo fato de a mundialidade — retomada por Chamoiseau na sua dança glissantiana —, que é acidente orgânico-geográfico-cinético, ao tempo que é agência ética aberta, oferecer o tremor criativo e refundador da vivência de mundo trançado e movente, constituído por todas as suas partículas, pelo apreensível, pelas presenças e pelo que escapa às capturas. Na mundialidade — ou tendo-a como matéria —, pode-se viver a esperança dos trânsitos que nos situam e, a partir do fato relacional, a Relação como poética que (se) doa ao dessemelhante. Migrar é a própria memória da ocupação pelo e no espaço-paisagem (no caso humano, desde o continente africano) de um corpo que há, houve e, sem certeza, haverá. O corpo-migrante, ou seja, o que existe, só pode vicejar sob a ação e a consciência de uma solidariedade advinda de um imaginário relacional. Trata-se da solidariedade que acolhe o outro, confrontando o si-mesmo, a paragem, a fixidez, o absoluto, as essências e a verdade; o outro que cria o mundo e o seu revés, condicionando a mundialidade ao estado de alteração. A esperança solidária trazida por Chamoiseau, contraposta à globalização posta, evidentemente, leva-nos a Milton Santos — quero lembrar que reajo à tradução brasileira do presente livro, em 2026, no centenário de nascimento do geógrafo-pensador. Nesse sentido, os “de baixo” são aqueles que hasteiam solidariedade, resistência (em tempo lento) e cooperação com a qual todos devem ter lições. A condição de cooperação — desde sempre vivida por outros entes nos mais variados ecossistemas — não deveria ter origem, portanto, tão somente na aflição e na sobreposição do estado de indignidade. Os migrantes que atravessam (e, mais espesso que esse fato, tentam atravessar) o Mediterrâneo ou os recortes da fronteira entre o México e os Estados Unidos são os “de baixo” (assim posicionados numa conjuntura alicerçada em opressões hierarquizantes, por óbvio) que nos lembram da escuridão fértil de possíveis do futuro — os possíveis que não se fizeram precipitação de chuva nem são vapor de iminência. Os migrantes são ici-là, arquipélago de toda parte, mar como terra firme e terra como abismo. Se a paisagem é o país revestido do seu continuum autobiográfico, conforme dissera Glissant, o estado de migração vaticina, elabora e alucina as paisagens do mundo; é ele o mundo a realizar, em silêncio ou com música, um parâmetro poético que só existe nos laços. Tiganá Santana
Sobre o autor
Patrick Chamoiseau, nascido em 1953 em Fort-de-France, Martinica, é uma das vozes mais importantes da literatura caribenha. Graduado em Direito e Economia, exerceu a função de educador social na França e depois na Martinica. Interessado por etnografia, ele se debruça sobre a formas culturais em vias de desaparecimento de sua ilha natal, mas também sobre o dinamismo de sua língua materna, o crioulo. Em 1986, publica seu primeiro romance, Chronique des sept misères, vencedor dos prêmios Loys Masson e Kléber-Haedens, e dois anos depois, Solibo Magnifique. Em 1989, juntamente com Jean Bernabé e Raphaël Confiant, escreve o influente manifesto Éloge de la créolité, inspirado nas teorias da negritude de Sédar Senghor e Aimé Césaire, em que reivindica uma identidade caribenha pautada na mestiçagem cultural. Desde então, assinou diversos ensaios, notadamente Lettres créoles (1999), com Raphaël Confiant, e L’intraitable beauté du monde (2009), com Édouard Glissant. Em 1992 recebe o prestigioso prêmio Goncourt pelo romance Texaco, nome de um bairro negro em Fort-de-France. Mais recentemente lançou Contes des sages créoles (2018), os ensaios de Le conteur, la nuit et le panier (2021), o manifesto poético Frères migrants (2017) e o atualíssimo Que peut Littérature quand elle ne peut? (2025), em que faz uma aposta no poder da literatura em acolher a alteridade e construir relações num mundo cada vez mais polarizado e opressor.
Sobre a tradutora
Nascida na Suíça, em 1975, Prisca Agustoni é tradutora, poeta e professora de literatura, criação literária e tradução na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Formou-se em Letras e Filosofia pela Universidade de Genebra (Suíça). É doutora em Letras pela PUC-Minas. Em sua tese, O Atlântico em movimento (Prêmio Capes, 2010), analisou a herança simbólica da diáspora africana na poesia afro-brasileira e africana lusófona contemporâneas. Como tradutora, trabalha principalmente com literatura italiana e literatura francófona, tendo traduzido, no Brasil, autores como Ágota Kristof, Jean d’Amérique, Marina Skalova, Max Lobe, Fleur Jaeggy, além de ter idealizado e coordenado a tradução de uma coleção de dez plaquetes de poesia italiana feminina contemporânea ( La Corte, Edições Macondo, 2023). É também tradutora de literatura brasileira na Itália, tendo traduzido o romance Antonio (Utopia, 2021), de Beatriz Bracher, e uma plaquete do poeta Edimilson de Almeida Pereira, Branchie (Isola, 2022).
Veja também
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